Continuaram Maria e seu amigo, se aventurando a observar os dois lados da vida, na efervescente cidade.
- Sempre tive a curiosidade de ver o que ocorre em hospitais, delegacias, estes locais de movimento intenso e onde ocorrem coisas graves e urgentes...
Rapidamente Maria e seu amigo anjo chegaram a um dos hospitais da cidade. Era uma construção imponente, de muitos andares.
- Comecemos pela emergência, filha, vejamos o panorama.
Maria olhava estupefata para a intensa movimentação de encarnados e desencarnados. Chamou a atenção de Maria a agonia de moça, que chegou à portaria segurando o ventre, reclamando de fortes cólicas. Maria observava que a mulher vinha acompanhada de duas comitivas bastante distintas entre si. Havia dois espíritos a certa distância, dando mostras de se tratavam de benfeitores, como o anjo amigo de Maria. Aguardavam silenciosos e equilibrados o desfecho dos acontecimentos. Havia ali ainda um espírito horrendo, este praticamente imantado à Maria e, revivendo alguma cena dantesca, encontrava-se sobre os ombros da mulher, com as pernas trançadas sobre seu colo e as mãos agarradas à cabeça da desavisada criatura. A cena chegava ao cúmulo de parecer algo circense, pois aquele obsessor ali amontoado ria estridentemente, exibindo dentes pontudos, parecendo talhados em rituais de tribos primitivas.
- Filha, concentre-se, peça permissão aos Mentores da Espiritualidade Superior para conhecer a triste história desta moça...
Intuitivamente, Maria colocou a destra na fronte da moça, enquanto a atendente preenchia a papelada. Ao fechar os olhos, Maria transportou-se ao dia anterior em que, no mesmo horário, aquela bela moça da alta sociedade situava-se num verdadeiro pardieiro infecto, um local afastado, na zona rural da cidade, instalado precariamente como clínica clandestina de abortos.
O local era fortemente vigiado por espíritos de grande porte, corpos fortes, sem pelos, quase desnudos, tatuados com alguns símbolos muito peculiares. Maria quase ficou paralisada de medo. Sim, eles existiam, eram reais: os dragões! Assim chamados por integrarem a mais poderosa organização da maldade do submundo espiritual. Tão temíveis, quanto maus, inteligentes e organizados.
O anjo de Maria falava à sua mente:
- Não tema, eles não percebem sua presença, você está em outro espaço-tempo. Neste local em que uma enfermeira da terra organizou este local infame com o objetivo de ceifar as vidas físicas dos reencarnantes, esta facção da maldade, que há milhares de anos quer atrasar a evolução espiritual da humanidade, montou um posto de vigília com vários 'soldados', Assim agem porque vampirizam o precioso fluido vital emanado do sangue dos encarnados, cheio de vitalidade e energia, além do que, ajudam a levar a termo muitos e muitos planos de vingança, de encarnados e desencarnados.
Tarefeiros do bem tentaram de várias maneiras impedir que mulher transpusesse as barreiras vibratórias malignas, inclusive, providenciaram para que o veículo que dirigia apresentasse defeito mecânico mas, resoluta, a mulher chegou ao local num táxi.
Dentro da casa simples, quem visse a construção não se impressionaria tanto mas, com os olhos do espírito, constataria como Maria constatou, que centenas de espíritos sofredores rondavam o local. As paredes, vistas pelo olhar do espírito, tinham vários tipos de criaturas monstruosas a elas aderidas, difíceis de se descrever. Eram como larvas que ali se alimentavam de sofrimento e fluido vital do sangue humano, para depois serem utilizadas em experiências funestas em obsessões a encarnados, de maneiras que jamais se poderiam imaginar, nem nos mais esmerados roteiros de filmes de terror...
Enfim, a mulher entrou no 'consultório'. A enfermeira das trevas já havia organizado os instrumentos que utilizaria no aborto, que procedeu com a frieza costumeira, com inenarrável desprezo a obra Divina. Fixando a visão espiritual na figura da enfermeira, Maria vislumbrou que seu perispírito tinha a mesma configuração monstruosa dos soldados que guardavam a casa.
- Maria, filha, o corpo físico nem sempre corresponde ao que nos mostra o espírito. Esta mulher de regular aparência, na verdade, é uma deles.
Depois de usar o espéculo e ignorando a dor que sentia a moça, procedeu ao ato infame, injetando líquido que envenenaria o reencarnante.
No ato imundo, a enfermeira não notou diferente conformação do colo do útero da garota, provocando intensa lesão na área.
Já ao sair do local, foi acompanhada pelo espírito de dentes pontiagudos que Maria viu no saguão de entrada do hospital.
- Este será meu - dizia - consegui! Vou levá-lo novamente. Eu te achei e vou te levar comigo!
- Maria, veja filha, nossos algozes do passado, obstinados no mal, são capazes de nos localizar quando reencarnamos, dado ao nível de ligação mental que muitas vezes estabelecemos com eles. Este irmãozinho reencarnado já havia se redimido do mal e iniciava nova jornada com grandes chances de êxito, mas o obsessor de outrora influenciou a mãezinha que tomou a decisão infeliz e agora aguarda o desfecho dos acontecimentos. É claro que isto, minha filha, não diminui a culpa da mãe, que seria enormemente amparada por benfeitores espirituais mas, como não manteve a calma ante a uma gravidez indesejada e não seguiu a recomendação de Jesus quando nos disse para que orássemos e vigiássemos, eis aqui agora a pobre moça, sofrendo a consequência de sua equivocada escolha. Aqui estamos diante de mais um triste desfecho de um aborto, um dos crimes ainda mais praticados pela humanidade em evolução, a despeito dos esforços hercúleos dos espíritos do bem, notadamente dos da Legião de Maria, mãe de Jesus.
Ao chegar em casa, a infeliz mulher foi acometida de náuseas insuportáveis. A cólica sobreveio pela manhã com intenso sangramento...
Neste momento, Maria voltou ao hospital. A visão de todo o ocorrido no dia anterior durou apenas alguns décimos de segundos de seu pensamento. O tempo é relativo quando se está em outro nível vibracional!
Quando assinava a autorização de atendimento, a infeliz desmaiou. O espírito obsessor pisava em suas costas em perfeita pantomima, cena triste de se ver.
Enfermeiros acudiram e o médico de plantão impressionou-se com a intensidade da hemorragia. Aquele espírito horrível agarrou-se à genitália da mulher em agonia, sorvendo com sofreguidão o precioso fluido vital do sangue que se esvaía. Maria estava atônita.
- Calma filha, a misericórdia de Deus alcança as situações mais difíceis.
No momento em que o benfeitor terminou de falar, aqueles dois espíritos que até então nada disseram, aproximaram-se. O obsessor estrebuchava e os ameaçava, em meio à impropérios. Placidamente, um deles iniciou singela prece:
- Senhor da nossa glória e redenção, Jesus, Príncipe da Paz. A Ti rogamos, nosso amoroso Mestre e pedimos a intercessão de Seus prepostos de luz para acolhida deste irmão, em tentativa fracassada de retorno à morada transitória na matéria. Rogamos que a Luz Divina balsamize seus espírito exaurido com os sofrimentos iniciados no dia anterior. Pedimos ainda que esta irmã, na medida de seu merecimento e esforço, alcance a compreensão necessária da gravidade de suas decisões precipitadas e vislumbre o arrependimento renovador. Ampara Jesus, este ambiente, estas almas...
À medida em que oravam, jatos de luz provinham do centro cardíaco daqueles dois, inundando o ambiente. O obsessor saiu de lá, totalmente amedrontado, desacostumado que estava da luz, havia centenas de anos.
Aquele mesmo que proferiu a prece, recolheu nos braços o espírito que iria reencarnar, enquanto o outro impôs as mãos espalmadas sobre sua cabeça, o que o levou a um sono profundo e reparador.
Saíram de lá os três, dois 'anjos' e o pobrezinho abortado. No ambiente da emergência permaneceu a luz emanada da oração. O médico recebeu intuição do que melhor fazer de imediato e procedeu da maneira mas benéfica naquela urgência. Mais tarde, a moça passaria por uma intervenção cirúrgica que salvaria sua vida, mas a impediria de maternidade futura...
Maria estava perplexa. Quantas consequências decorrentes de uma decisão impensada!
- Maria, querida, esta moça será incapaz de ser mãe. Pode ser que o espírito abortado não se revolte com o ato, mas o contrário também pode ocorrer e ele próprio passar a obsidiá-la. Pode ser que ele volte aos braços dela como filho adotivo, mesmo assim, os trabalhadores de Cristo, terão que demover grandes esforços para colocar estes dois destinos na mesma linha redentora novamente. Perceba filha, como as pessoas deliberadamente atrasam sua evolução!
Maria abraçou seu anjo demoradamente. Aprendera muito e logo retornaria ao corpo físico, mas seu cotidiano não seria o mesmo. O aprendizado daquela noite logo se transmutaria em trabalho para o bem durante o repouso do corpo. Maria decidiu deixar de ser uma doente da alma e vítima de sua própria melancolia, para ser tarefeira ativa da Espiritualidade. O serviço no planeta em transformação era enorme e urgente e era preciso começá-lo o quanto antes!
Não existe acaso na obra de Deus. Assim como deveriam se cruzar os destinhos daquela mãe e do reencarnante, havia uma finalidade traçada depois que o destino de Maria se cruzou novamente com o de seu anjo.
Deus seja sempre louvado!
Daniela Marchi, 12 de Janeiro de 2012. Araçatuba - SP.